“Sem planejamento não há solução viável para o problema das enchentes”. Leia entrevista com o professor Antonio Eduardo Giansante

A Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, por meio do seu Núcleo de Estudos e Pesquisas Socioambientais e Núcleo de Pesquisa em Ciências Sociais, em parceria com a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES e UNIABES, promove o Curso de MBA Saneamento Ambiental – pós-graduação na modalidade Educação a Distância (EAD). 

O objetivo central do curso, que está iniciando sua segunda turma, é qualificar profissionais que atuam na gestão pública ou setor privado nas áreas de saneamento e recursos hídricos. 

Entre os diversos temas abordados no MBA Saneamento Ambiental está a questão das enchentes, que a cada ano provocam grandes transtornos pelo Brasil. Nesta entrevista, o professor Antonio Eduardo Giansante fala sobre o assunto, explicando os processos que resultaram nesta situação e o que seria necessário fazer para tentar resolvê-la.

Segundo o especialista, planejar é fundamental. “Não existe solução ‘mágica’, mas somente por meio de planejamento e por isso a Lei Federal nº 11.445/07 previu a drenagem urbana como um componente essencial do saneamento. Sem planejamento não há solução viável”, ressalta. Giansante afirma, ainda, que é preciso desenvolver “a cultura de urbanização diante dos rios, valorizá-los como locais de lazer e de benefícios ao microclima urbano”.

Leia a entrevista: 

MBA Saneamento Ambiental– As enchentes são um problema crônico em muitas cidades brasileiras. Como o país chegou a este ponto? Quais processos foram determinantes para culminar nesta situação?

Prof. Antonio Eduardo Giansante– Houve um processo muito acelerado de migração da população da zona rural para a urbana em poucas décadas. A falta de recursos públicos para implantar políticas de habitação ou a gestão insuficiente levou a população mais carente a ocupar áreas vulneráveis às inundações, como várzeas de rios e encostas. Some-se a crescente impermeabilização do solo que levou mais ainda à aceleração das águas, provocando aumento de frequência de inundações dos fundos de vale. Por fim, deve-se acrescentar que as chuvas são intensas num país tropical, o que agrava mais ainda as inundações urbanas.

MBA Saneamento Ambiental– O que precisaria ser feito para tentar solucionar a questão? Quais são os principais desafios?

Prof. Antonio Eduardo Giansante– Inicialmente, precisa mudar a cultura de urbanização perante os rios, valorizá-los como locais de lazer e de benefícios ao microclima urbano. Assim, os rios teriam seus espaços naturais preservados, onde estariam parques melhorando a qualidade de vida da população. Os rios precisam deixar de ser vistos como latrina ou depósito de lixo, de forma que as prefeituras interromperiam a proposição de somente canalizações como solução para o manejo de águas pluviais urbanas, buscando conviver com elas.

MBA Saneamento Ambiental– A drenagem urbana no Brasil é um tema que, a cada ano, só é lembrado – pelos meios de comunicação, pela sociedade como um todo – no período das chuvas e ocorrem os alagamentos. Como o senhor avalia esta questão?

Prof. Antonio Eduardo Giansante-Sim, mais um problema que é só lembrado na época das chuvas e depois é esquecido. Perde-se a oportunidade de planejar as soluções que são buscadas somente nos eventos chuvosos que levam às inundações urbanas. Não existe solução “mágica”, mas somente por meio de planejamento e por isso a Lei Federal nº 11.445/07 previu a drenagem urbana como um componente essencial do saneamento. Sem planejamento não há solução viável.

MBA Saneamento Ambiental– Por que o assunto é tão pouco explorado mesmo causando grandes estragos na vida da população, ano após ano? O que falta para que medidas mais efetivas sejam tomadas?

Prof. Antonio Eduardo Giansante– Além da questão do improviso – e não se improvisa com infraestrutura urbana – falta a cultura do planejamento e de projetos de engenharia efetivos, e não medidas de afogadilho que muitas vezes levam somente ao desperdício dos recursos públicos investidos.

MBA Saneamento Ambiental– Qual é a situação da drenagem urbana no âmbito do Plano Nacional de Saneamento Básico – PLANSAB?

Prof. Antonio Eduardo Giansante -Faltam diretrizes mais concretas para a ampla diversidade de situações brasileiras, desde regiões com clima equatorial até o semiárido brasileiro.

MBA Saneamento Ambiental– E quanto à tecnologia neste cenário?

Prof. Antonio Eduardo Giansante– A tecnologia usada ainda é a mais usual e tradicional, procurando basicamente acelerar as águas de chuva quando caem no solo, sem procurar retê-las e infiltrá-las no que for possível. As águas aceleradas para jusante tendem a inundar os fundos de vale com maior frequência, erodir solos no caminho e assorear as calhas dos rios receptores. A tecnologia hoje deveria procurar trabalhar com as águas pluviais onde se precipitam. Essa água pereniza os rios nos períodos de estiagem, melhorando a qualidade de vida da população urbana, além de atenuar as inundações.

MBA Saneamento Ambiental– A população que vive em áreas de risco sofre ainda mais os impactos das enchentes. Há alguma ação para minimizar estes impactos? E o que a própria população pode fazer a respeito?

Prof. Antonio Eduardo Giansante –Já foi explicado o processo que levou a população morar nessas áreas vulneráveis e o mínimo que pode fazer, e geralmente está a seu alcance, é dispor o lixo corretamente, não o lançando nos rios, hábito culturalmente muito arraigado, infelizmente. Esses resíduos sólidos sempre acabam por prejudicar alguém, além de degradar o ambiente.

MBA Saneamento Ambiental– O que o aluno do MBA Saneamento Ambiental pode esperar deste tema? Como o curso pode contribuir para melhorias nesta área?

Prof. Antonio Eduardo Giansante– A educação de gestores urbanos é o melhor caminho para que os parcos recursos públicos sejam aplicados de forma eficiente e alcancem o objetivo de um ambiente urbano equilibrado e sustentável.

MBA Saneamento Ambiental– O senhor gostaria de acrescentar algo?

Prof. Antonio Eduardo Giansante– A cobrança de uma taxa de drenagem relacionada diretamente ao grau de impermeabilização de um lote e à falta de medidas de manejo mais adequado de águas pluviais é um caminho para garantir que ao menos se tenha recursos para manter a infraestrutura existente.