Prof. Giasante fala sobre o perfil do novo profissional do saneamento e a drenagem de águas pluviais

As exigências do mercado com relação ao perfil do novo profissional do saneamento tendem a ser cada vez mais rígidas. As mudanças já estão em curso devido à discussão levantada pelo Marco Legal, Projeto de Lei 3261, cujo texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados em dezembro de 2019.

Para que o profissional mantenha-se sempre atualizado e preparado para o mercado, a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, por meio do seu Núcleo de Estudos e Pesquisas Socioambientais e Núcleo de Pesquisa em Ciências Sociais, em parceria com a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES e a UNIABES, promove o Curso de MBA Saneamento Ambiental – modalidade Educação a Distância – EAD.

O curso tem como objetivo central qualificar profissionais que atuam na gestão pública ou setor privado nas áreas de saneamento e recursos hídricos. Em entrevista ao Portal MBA Saneamento Ambiental, o professor do curso Antonio Eduardo Giansante fala sobre a importância de uma atualização constante e o estudo de drenagem de águas pluviais.

Leia a seguir a entrevista, na íntegra:

Portal MBA Saneamento Ambiental – Considerando as mudanças previstas no Marco Legal do Saneamento, qual o perfil do novo profissional do setor?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – O profissional do setor de saneamento de nível superior sempre necessitou de uma gama ampla de conhecimento das mais variadas origens como física, matemática, biologia, economia, informática, além de saber se expressar bem, escrita e oralmente.

É um desafio grande dada a sua responsabilidade social, porque atua na saúde pública e no meio ambiente. Por isso, não são muitos que se dedicam ao setor. Para os profissionais dos demais níveis de atuação, desde operacionais e técnicos de nível médio, falta um Centro de Formação de Mão-de-Obra, um requisito há muito demandado pelo setor.

Se essas são as exigências dentro do cenário atual, tendem a se ampliar com o Marco Legal em discussão. Enfim, a necessidade de atualização é permanente. (Há) grandes desafios para o profissional do setor.

Portal MBA Saneamento Ambiental – A que tecnologias e tendências este profissional deve estar antenado?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – O processamento digital de informações veio para ficar e o profissional precisa ter conhecimento de tecnologia de informação e todo o seu potencial de aplicação.

Por exemplo, a telemetria e o telecomando são cada vez mais imprescindíveis, porque tornam a operação dos sistemas de água e esgotos – a drenagem está ainda muita atrasada operacionalmente – muito mais ágil e efetiva.

Por outro lado, o avanço dos processos de tratamento é permanente, de forma que novos equipamentos mais eficientes se tornam disponíveis, como um exemplo, e o profissional tem que ficar a par desse desenvolvimento. Uma forte base conceitual é indispensável para a sua atuação.

Portal MBA Saneamento Ambiental – Quais serão as demandas do mercado de saneamento nos próximos anos e como os profissionais devem se preparar para atendê-las?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – Mesmo com a crescente automação e em um horizonte maior até a possibilidade de emprego de inteligência artificial, o setor vai continuar a depender de profissionais competentes e com atributos como os mencionados anteriormente.

Não há como não depender de profissionais que consigam analisar casos e conceber sistemas de saneamento completos ou proposições concretas que levem à máxima cobertura quanto à prestação de serviços. Logo, a necessidade de uma visão integrada como um todo vai permanecer, tendo em vista que o país ainda está distante da universalização dos serviços de saneamento.

Portal MBA Saneamento Ambiental – Como é possível acompanhar as mudanças do mercado da forma eficaz?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – É preciso ter acesso a publicações técnicas e acadêmicas, a catálogos de fabricantes e participar das feiras e congressos do setor, seja no Brasil ou no exterior.

Evidentemente é muito difícil e caro para que um profissional viaje e acompanhe o desenvolvimento que ocorre mundo afora, porém é indispensável que quem tenha essa possibilidade faça o repasse para os colegas do setor de saneamento.

Portal MBA Saneamento Ambiental – Quais as implicações para os profissionais do setor que se limitam a conhecimentos relacionados apenas a água e esgoto?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – A primeira é a mais evidente: perdem a capacidade de perceber o setor como um todo e suas interdependências. Por exemplo, é comum encontrar na administração municipal uma mesma secretaria cuidando de limpeza pública e drenagem, dado que o “lixo” obstruiu as estruturas hidráulicas.

Em seguida, pelo lado técnico, existem processos de tratamento de água e de esgotos que utilizam bases físicas, químicas e biológicas bem próximas. Por fim, a tendência é que cada vez mais num município exista um único ente que cuide da gestão dos quatro componentes do setor: abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de água pluviais e limpeza pública, incluindo a disposição final de resíduos sólidos, o que exige conhecimento dessas quatro áreas.

Portal MBA Saneamento Ambiental – Qual a importância da especialização em drenagem de águas pluviais?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – É notório o despreparo dos municípios brasileiros em lidar com as águas pluviais e as tragédias recorrentes apenas mostram que se buscam soluções mais imediatas e raramente baseadas num planejamento de longo termo.

Além disso, o profissional da área deveria propor medidas além das convencionais de drenagem urbana que geralmente aceleram as águas e não procuram trabalhar no local onde a chuva cai. Recompor matas ciliares além de atenuar os efeitos das cheias, melhoram o clima urbano como várias cidades mundo afora mostram.

Portal MBA Saneamento Ambiental – Poderia passar um breve cenário da drenagem no país?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – Um país que tem um clima em que chuvas intensas são comuns, mas com soluções quase sempre convencionais para lidar com as mesmas. Prefeituras despreparadas em termos técnicos e administrativos nas quais faltam cadastros das estruturas hidráulicas e recursos para a manutenção e operação e manutenção. Portanto, um nível de atuação ainda rudimentar praticamente.

Portal MBA Saneamento Ambiental – Quais foram os principais avanços e desafios nesta área?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – Como desafios, citam-se: capacidade de atuação, incluindo a remoção de população que mora em áreas vulneráveis, sistemas de alertas cada vez mais efetivos e contar com recursos permanentes originados, por exemplo, da cobrança de uma taxa de prestação de serviços de drenagem urbana. É mais uma taxa e impopular? Sim, mas é melhor do que viver uma situação de cidades despreparadas para enfrentar as chuvas intensas com danos para todos. Como avanço, a necessidade de elaborar o planejamento de águas pluviais estabelecido pela lei federal nº 11.445/07.

Portal MBA Saneamento Ambiental – Quais são as soft e hard skills que o profissional de saneamento deve ter?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – Capacidade de diálogo com a população e com o município e ter as habilidades mencionadas nas perguntas anteriores. Ou seja, capacidade de se comunicar e explicar a importância do seu trabalho para o avanço do saneamento ambiental.

Portal MBA Saneamento Ambiental – Qual a importância de conhecer as certificações para a área de saneamento?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – Várias prestadoras de serviços de saneamento já seguem além das normas técnicas brasileiras, procedimentos próprios que tornam a ação dos seus profissionais ou terceirizados cada vez mais eficiente, logo objetiva.

 Portal MBA Saneamento Ambiental – De que forma os profissionais podem adquirir esse conhecimento de forma atualizada e constante?

Prof. Antonio Eduardo Giansante – Por meio de cursos de especialização ou técnicos que contem com professores conhecedores e habilitados. Além disso, a leitura permanente de livros, estudos e trabalhos aumentam a cultura do profissional e sua capacidade de atuação em um setor que é tão importante para a população quanto à saúde pública e qualidade ambiental.

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