O Mercado Do Saneamento pós-pandemia no Brasil

Um país que deseja um destaque positivo no cenário econômico mundial não pode ignorar a urgência do acesso ao saneamento básico, imprescindível para o desenvolvimento social e econômico de uma sociedade.

A saúde da população é a maior prejudicada pela falta de saneamento, visto que muitas doenças estão vinculadas ao contato direto com esgoto ou a água sem devido tratamento. 

Sendo assim, o saneamento básico está atrelado diretamente à saúde de todos e ao serviço público de qualidade prestado aos moradores, o que tem impacto no desempenho e no cotidiano da população.

Para os países em desenvolvimento, o desafio é encontrar soluções que sejam baratas e que possam ser replicadas em larga escala. 

Um estudo da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (ABCON) com a KPMG estimou que, para a universalização do saneamento até 2033, serão necessários R$ 498 bilhões de novos investimentos para expansão de infraestrutura, sendo R$ 144 bilhões em distribuição de água e R$ 354 bilhões em coleta e tratamento de esgoto. Ou seja, R$ 31 bilhões por ano de investimento em saneamento, sendo R$ 9 bilhões por ano para a universalização de serviços de água e R$ 22 bilhões por ano para a universalização dos serviços de esgoto¹.

Conversamos com a professora Luciana Barreira, mestre pela Faculdade de Saúde Pública, na Universidade de São Paulo e professora do MBA Saneamento Ambiental, realizado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, onde trabalha, também, em projetos relacionados à gestão de resíduos, saneamento, ambiente e sociedade. Confira:

Quais serão as demandas do mercado de saneamento nos próximos anos e como os profissionais devem se preparar para atendê-las?

O setor de saneamento vem passando por mudanças e, em pleno século XXI, a sociedade não pode mais esperar para ter água tratada e de qualidade. É importante entender que somos um país com diferenças enormes e não podemos nos fixar numa zona de conforto dos grandes centros urbanos. Existem mais de 35 milhões de brasileiros sem água tratada e mais de 100 milhões sem coleta e tratamento de esgoto. Precisamos olhar para essa população. E quando consideramos os grandes centros, temos que trabalhar com eficiência, diminuindo perdas de água, usando tecnologias mais modernas, cumprindo metas de universalização dos serviços. E isso se faz com planejamento, gestão integrada, olhar transversal e interdisciplinar.

De que forma os profissionais podem adquirir esse conhecimento de forma atualizada e constante?

Primeiro ponto é entender as mudanças pelas quais o setor de saneamento vem passando e, independente da nossa formação, seja ela em engenharia, biologia, sociologia, direito ou qualquer outra, o setor de saneamento precisa integrar todos os conhecimentos possíveis para a resolução de problemas reais da nossa sociedade. Entendendo que só nossa formação não basta. Seguimos para a segunda etapa: a atualização constante. E nesse quesito, o curso de MBA Saneamento Ambiental, da FESPSP, proporciona um ambiente propício para a troca de experiências, discussões e integração entre as diversas áreas que compõem o saneamento, como gestão, tecnologias, políticas públicas, regulação, recursos hídricos e sociedade. A proposta é permitir um olhar transversal sobre a questão do saneamento no país, independente da atuação profissional. É um olhar sobre todos os ângulos, que possibilita ao aluno o pensar “fora da caixa”. Esse é um profissional que o setor espera e a sociedade exige.

Diante da pandemia, como a informação sobre os serviços de coleta puderam beneficiar a saúde pública e auxiliar no combate ao novo coronavírus?

No início da pandemia, essas questões foram muito discutidas, pois os profissionais da coleta ficaram expostos aos riscos potenciais do vírus por estarem na linha de frente da limpeza urbana. Para que a continuidade dos serviços pudesse ser assegurada, alguns cuidados extras tiveram que ser adotados, como proteção total aos coletores, por meio de equipamentos adequados de proteção individual e coletivos, higienização constante das mãos e dos EPIs e afastamento dos indivíduos dos grupos de risco ou com sintomas relacionados à doença. A informação levada à população foi fundamental para minimizar os riscos a esses profissionais, como por exemplo, em situações nas quais havia pacientes com a COVID-19 sendo tratados em casa e a segregação dos resíduos produzidos por esses indivíduos, com avisos nos sacos de lixo dispostos para a coleta. 

Por que se fala que o maior desafio da pandemia será nas favelas/comunidades?

Para controle eficiente da epidemia do coronavírus, a recomendação da sociedade médica e dos especialistas é “lavar as mãos e ficar em casa”. Só que numa situação de vulnerabilidade e precariedade em que vivem milhões de brasileiros, essa indicação é muito difícil de ser atendida. São estimadas cerca de 12 milhões de áreas vulneráveis no Brasil, como, por exemplo, assentamentos precários, em que convivem famílias inteiras. Ou seja, quem fica doente, não fica enfermo sozinho. Devem ser pensadas, planejadas e organizadas ações de higiene e de saneamento específicas para esses locais, além de mobilizados comunidade, poder público e concessionárias de abastecimento de água e de limpeza urbana para, juntos, definirem prioridades, estratégias de comunicação e implantação de tecnologias adequadas a esses locais. Já que as políticas públicas não conseguem atender satisfatoriamente às necessidades dessa população, precisam ser planejadas ações emergenciais para conter o avanço do coronavírus nessas populações mais vulneráveis.

Como a senhora avalia a situação do setor no pós-pandemia? 

Estima-se que haja 1 bilhão de vírus circulando na natureza com potencial de gerar doenças. O aumento populacional, a diminuição dos espaços protegidos e a aproximação do homem com hospedeiros em potencial, como é a hipótese levantada pelos cientistas para o SARS-CoV-2, são fatores propícios para que, de tempos em tempos, surjam esses casos de epidemia. A princípio, o isolamento social pôde impedir a disseminação mais rápida do vírus. Mas à medida que as pessoas retornarem a circular e medidas de higiene deixarem de ser aplicadas, há um potencial retorno da doença. Essa situação já está sendo vivenciada na China, com uma possível recontaminação em bairros que retomaram suas atividades. Isso nos mostra que se livrar desse vírus será algo muito difícil, e, provavelmente, ele se tornará endêmico, ou seja, de tempos em tempos, teremos surtos da doença, mesmo com a produção de uma vacina. No Brasil, a epidemia escancarou uma realidade já conhecida por nós sanitaristas, mas evidenciou ainda mais a falta de universalização dos serviços de saneamento e a fragilidade do setor em termos de eficiência e cumprimento de metas. Por outro lado, isso pode ser muito positivo, pois neste momento também estamos aprovando o novo marco regulatório do saneamento, o PL 4.162/2019. Independente das polêmicas que envolvem o seu conteúdo, a discussão em torno do PL está contribuindo para um maior conhecimento da população sobre seus direitos. Embora a Lei nº 11.445 já tenha ratificado os direitos instituídos na Constituição de 88, ainda são registradas por ano 15 mil mortes e 350 mil internações em consequência da falta de saneamento básico no país. Ou seja, a sociedade não pode mais esperar décadas e décadas para ter água de qualidade e com regularidade, esgoto coletado e tratado e uma gestão adequada dos resíduos sólidos. Estudos indicam a necessidade de investimentos na ordem de R$ 500 bilhões de reais para a universalização dos serviços. Creio que nós, profissionais da área, estamos preparados para contribuir com o desenvolvimento definitivo deste setor no Brasil.

Por: Ingrid Fiel

¹ https://home.kpmg/br/

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